O MITO DO MITO DO NOSSO PRAZER

O MITO DO MITO DO NOSSO PRAZER

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Que corpo de mulher é visto como campo de batalha onde muitos ganham, mas poucas vezes ela, não é novidade para ninguém. Que o seu prazer já foi condenado, proibido, patologizado e transformado no resultado de um processo de pontos por pontos gerais a seguir, também não.

Antes de tudo quero esclarecer o meu ponto de vista. O orgasmo é um direito, não um dever. Não serve para satisfação de ego nem troféu de mais ninguém que não quem o sente. Também acredito estar nas mãos do portador e transmissível após autoconhecimento e saber-se a solo o que é o prazer.

Não é também o fim nem objectivo de qualquer encontro sexual, entre os muitos que se propõem prazer e intimidade parecem-me tão ou mais enriquecedores e menos redutores.

Quanto aos orgasmos, não creio em listas compulsórias, nem 11, nem 4, nem 1!

Autodeterminação do prazer é dar a cada corpo a liberdade para encontrar a sua fonte de satisfação e clímax.

 

Quando se fala de ejaculação feminina trazem-se para cima da mesa, ou cama, questões com que nos debatemos há imensos anos.

Começando pelo nome: ejaculação (claro, está), feminina. No meu mundo utópico de diversidade e prazer encontraria um nome para o fenómeno que não se baseasse na assimilação de processo fisiológico masculino. Claro está a nossa próstata, glândulas prostáticas, ou, por outro nome, glândulas de Skene, está envolvida. Um estudo de 2011 de Cassilas e Jannini propõe que se divida o conceito de ejaculação feminina avaliando dois fenómenos diferentes, ambos com expulsão de fluido pela uretra no momento, ou imediatamente posterior, do orgasmo. Quando há uma emissão de baixa quantidade de fluido, leitoso, seria o chamado fenómeno de ejaculação feminina, per se, enquanto no caso do Squirting (ou esguichar) é emitida uma maior quantidade de fluido, proveniente da bexiga, com características de urina diluída.

O estudo de que este mês tanto se fala, noutros meses virão outros, chama-se “Nature and Origin of “Squirting” in Female Sexuality” e foi, qual bela prenda de Natal, publicado no Journal of Sex Medicine a 24 de Dezembro de 2014. Refere-se portanto ao fenómeno de Squirt (esguicho) e não de ejaculação feminina, foi feito com uma amostra de 7 mulheres ginecologicamente saudáveis, entre os 19 e os 52 anos, com actividade sexual mensal variada (de 4 a 20) e que reportavam episódios de emissões de largas quantidades de fluidos no momento do orgasmo há pelo menos 5 meses. Foram-lhes feitos 3 ultra-sons pélvicos, depois de urinarem voluntariamente, antes e depois da estimulação em laboratório feita quer com sex toys, quer com estimulação manual e com intervenção dos(as) respectivos(as) parceiros(as) ou não. O líquido emitido foi adequadamente recolhido para análise. As mulheres: de começo com bexiga vazia, a meio da estimulação com bexiga cheia e após a expulsão com bexiga vazia de novo. Espera-se que com barriga cheia de satisfação, mas isso são outros critérios. Embora numa amostra de 7 mulheres houvesse variações na quantidade de presença de antígeno prostático ou PSA, em todas as amostras havia uma presença de secreções prostáticas, e, sim, urina.

 

O estudo considera então a existência de dois eventos distintos no momento do Squirt, urina e secreções prostáticas.

Os autores destes estudos estimam que 10% a 40% das mulheres experienciem emissão de fluido durante o orgasmo.

Agora a prova que nos interessa: em todas as mulheres foi usada estimulação mecânica directa e todas demonstravam um estado emocional de confiança e relaxamento.

Isto para mim, sim é importante.

Se formos à história do discurso sobre o nosso corpo e prazer esta sempre foi cheia de enganos e desenganos, e a constante demissão da nossa voz sobre o nosso prazer. Freud patologizou-nos, Kinsey, Master e Jonhson ajudaram um pouco na nossa libertação, assim como Hite, Koedt acusou-nos e Tieffer vai-nos defendendo.

Perante as vozes que se levantam, e eu com elas, enquanto ser que urina e já mudou fraldas, posso-vos afirmar que durante a minha prática tive mulheres a ejacular e esguichar nas minhas mãos, não cheira a urina, não parece urina. E não precisaria de comprovar com a minha experiência. Não bastará acreditar na palavra das que se pronunciam?

Aqui encontram a história dos estudos caso queiram ler e referências aos vários artigos.

Não me interessa que comprovem a validade do meu prazer ou da outra. Não quero também que transformem a sexualidade de umas quantas mulheres e vivências em práticas circenses.

A estrutura interna do clítoris foi descoberta em 2009, e nem todos o assumem ainda. A masturbação feminina ainda não é uma prática totalmente generalizada e integrada como parte de uma vivência sexual saudável. O orgasmo na mulher ainda é escrutinado, numa luta entre a medicalização e o autoconhecimento e educação sexual.

 

A tentativa constante de tornar uma vivência em algo para todas, que todas temos de ter e dar o mesmo valor está especialmente presente na questão da ejaculação e squirt. Interrogo-me se não se transformará em mais um troféu masculino, porque agora sim, ele tem a certeza que ela se veio… aliás que ELE a fez ter um orgasmo. Nos últimos anos, livros, guias, multiplicam-se, e em vez de se focarem em aspectos diversos e formas diversas, focaram-se numa trend, aprenda a ejacular, ou ainda melhor, faça-a esguichar.

A ciência médica vem dar o seu aval ou desaprovação em estudos contraditórios que saem todos os anos. E nós caímos que nem tordos, de ambos os lados, incompletas se não temos, doentes ou estranhas se nos acontece. O estudo de Salama menciona inclusive a possibilidade de mais uma doença: incontinência urinária orgástica. Os profissionais cada vez mais reconhecem, do corpo e prazer da mulher, das sexualidades, ainda muito se vai saber e descobrir.

Talvez seja hora de tomarmos nós a voz, termos mãos nos nossos corpos (de forma literal também), ensinar e prezar o autoconhecimento e validarmos, cada uma de nós, a nossa forma de ter prazer, e o prazer que obtemos quando damos ao outro(a)/s, também.

E perante tanta multiplicidade, procurar desfrutar e obter prazer, deixarmos ao nosso corpo as manifestações que tem, vai ganhando e perdendo, e viver uma sexualidade em pleno, sem prescrições de como deve ser.

  • Ilustração Candy – Espiga Design
  • artigo originalmente publicado no blog Capazes

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