Short Bus: Construção de uma nova utopia sexual

Short Bus: Construção de uma nova utopia sexual

*  eng version soon

Utopia é definido por Nell Eurich em “Science in Utopia: a migthy design” como “os sonhos de alguém por um mundo melhor”. Esta definição implica dois conceitos, o de melhor, impreciso, vago e subjectivo e o de sonho, que nos alerta para o aspecto ficcional de Utopia. Utopia pressupõe, em todo caso, que a sociedade é capaz de melhoramento, o melhor é a rejeição do status quo, o melhor traz consigo um sentimento disruptivo com o presente, com o real.

A utopia clássica transcende espaço e tempo, algo que no Shortbus a acontecer, acontece de forma distorcida. As utopias nascem de uma insatisfação colectiva, no seio da qual é criado o espaço para a concretização de todo e qualquer desejo individual. Dirigidas à mudança social e pessoal, as utopias, de acordo com Gleen Negley J. e Max Patrick, são ficcionais, descrevem determinado estado de uma comunidade, e o seu tema são as estruturas políticas de determinado estado ou comunidade.

Em Shortbus a ideia de ruptura concretiza-se numa construção ficcional de uma Nova Iorque pós 11 de setembro, pós-traumática, presente quer em frases de personagens que explicam a recente vinda de muitos jovens para a cidade (“9/11. It’s the only real thing that ever happened to them”), quer na vista do quarto de hotel, parcialmente emoldurado por dildos, onde Severin está com um cliente, com a presença imediata e demasiado próxima do GroundZero, quer nos medos causados pelas súbitas falhas de luz, quer na sempre presente dor pós-traumática em eventos individuais e colectivos acompanhada de um pedido de redenção. Shortbus reúne um grupo de pessoas fracturadas, quebradas, na procura de si mesmo e do outro.

Bloqueios expressos com uma violência tremenda, com os braços de Sofia a serem rasgados pelos galhos do bosque no caminho para um orgasmo que não vêm, o corpo de James a ser tragado pela água no momento de suicídio, Rob a ser marcado pelo chicote de Severin numa violência não mais profissional, mas já descontrolada, nos olhos de James cheios de lágrimas a forçar-se ao metafóricamente inevitável, ao ser penetrado.

Um filme orgânico e emocional onde a ideia de morte está tão subjacente quanto a de vida, a morte presente no caminho de James com um destino final já por ele traçado, a morte na procura de Sofia pelo orgasmo, “La petite mort” em francês, e logo o renascimento e aqui é fulcral “ShortBus”, este espaço imaginado e mapeado numa NY em papel maché. Uma resposta ao “Where is Utopia?” de Thomas More, uma metáfora para essa recusa em responder, representada por uma cidade obra de arte, vista de cima e em maquete, acendendo-se a uma visão que o real não nos permite ter.

“ShortBus”, o espaço, é o autocarro para os dotados e com desafios, como nos diz a sua bela mistress Justin Bond as it self: “You’ve heard of the Big Yellow School Bus? Well, this is the short one. It’s a salon for the gifted and challenged.”, é um lugar heterotópico onde pessoas de todas as raças, identidades de género e identidades sexuais vêm para falar, foder, ver e criar novas ecologias de experiências. Uma heterotopia é um espaço de ordem alternativa em contraste com a ordem mundana e tomada como certa, espaços que nos desafiam, que questionam os limites da nossa imaginação, os nossos medos e os nossos desejos. Foucault define estes espaços como espaços de alteridade e resistência, onde ideias de liberdade e controle são postas em causa; Bataille define como incursão disruptiva do sagrado no espaço dissidente do profano. Lugares em ruptura com o que os rodeia, pelo marginal, radical, transgressor, espaços de ambívalência e diferença.

“O Pessoal é político” (Carol Hanish, 1969), o filme Shortbus põe em causa pessoas, estruturas intimas, emocionais, sexuais e de género diferentes, toca as questões de estruturas de poder e de distribuição em equidade dos índices de satisfação dos indivíduos, o salão Shortbus, lugar Shortbus, é este lugar de reposição e alteridade ao mesmo tempo, espaço transgressivo onde o pessoal deixa de ser privado, torna-se público. E é aqui que aparece o conceito radical e socialmente disruptor de permeabilidade como o caminho para a sanidade, numa intimidade desmontada, aberta ao público, onde tudo e todos são permitidos, com referência a actos considerados marginais pelo mainstream, a sexualidades alternativas, a fisting, anal e vaginal, a BDSM, ao incorporar da menstruação em performances, um lugar de partilha orgíaca e de auto e hetero aceitação.

Explora-se uma multitude de combinações criativas, com material sexual explícito, de uma forma optimista e intrínseca, onde o sexo aparece não apenas com um propósito instrumental, mas para a provocação intelectual e transgressão estética, explícito, in your face, em momentos como o da ejaculação que repinta Pollock, o do ovo vibratório destruído pela peça de arte, o próprio salão ShortBus, espaço de liberdade, arte e performance, espaço de acção criadora. E na medida em que heterotopia permite um modelo de ordem relacional baseado numa ideia de melhoria social poderá ser então um pensamento utópico e ShortBus uma ode à alegre e agridoce libertação do sexo, uma terra da Cocanha onde há um retorno à pureza e abundância para todos, um Éden sem tanta moderação, uma city upon a hill tão livre quanto o hino cantado no momento de rimming mais musical alguma vez visto, onde a ideia essencial é a de entrega directa ao outro, ou outros, é a integração.

Shortbus é um filme redentor.

É dito no filme: “And of course, New York is where everyone comes to be forgiven.”, a sensação do espectador no final é essa, uma sensação de perdão e integração imensa. Uma utopia de amor e excesso, queer pela integração de margens e desejos, de retorno pela rejeição da tecnologia que supostamente nos une mas tantas vezes nos afasta, relembrando um sentido comunitário que pressupõe toque, intimidade, proximidade, real e física. Utopia é também um lugar de esperança e de realização. Sejamos permeáveis então, nunca esquecendo como diz no filme de criar os espaços ” where people are still willing to bend over to let in the new.” Shortbus (2006) John Cameron Mitchell Um filme que aconselhamos ver!

  • artigo originalmente publicado a 28/10/2012

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Short Bus: Construção de uma nova utopia sexual

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Utopia é definido por Nell Eurich em “Science in Utopia: a migthy design” como “os sonhos de alguém por um mundo melhor”. Esta definição implica dois conceitos, o de melhor, impreciso, vago e subjectivo e o de sonho, que nos alerta para o aspecto ficcional de Utopia. Utopia pressupõe, em todo caso, que a sociedade é capaz de melhoramento, o melhor é a rejeição do status quo, o melhor traz consigo um sentimento disruptivo com o presente, com o real.

A utopia clássica transcende espaço e tempo, algo que no Shortbus a acontecer, acontece de forma distorcida. As utopias nascem de uma insatisfação colectiva, no seio da qual é criado o espaço para a concretização de todo e qualquer desejo individual. Dirigidas à mudança social e pessoal, as utopias, de acordo com Gleen Negley J. e Max Patrick, são ficcionais, descrevem determinado estado de uma comunidade, e o seu tema são as estruturas políticas de determinado estado ou comunidade.

Em Shortbus a ideia de ruptura concretiza-se numa construção ficcional de uma Nova Iorque pós 11 de setembro, pós-traumática, presente quer em frases de personagens que explicam a recente vinda de muitos jovens para a cidade (“9/11. It’s the only real thing that ever happened to them”), quer na vista do quarto de hotel, parcialmente emoldurado por dildos, onde Severin está com um cliente, com a presença imediata e demasiado próxima do GroundZero, quer nos medos causados pelas súbitas falhas de luz, quer na sempre presente dor pós-traumática em eventos individuais e colectivos acompanhada de um pedido de redenção. Shortbus reúne um grupo de pessoas fracturadas, quebradas, na procura de si mesmo e do outro.

Bloqueios expressos com uma violência tremenda, com os braços de Sofia a serem rasgados pelos galhos do bosque no caminho para um orgasmo que não vêm, o corpo de James a ser tragado pela água no momento de suicídio, Rob a ser marcado pelo chicote de Severin numa violência não mais profissional, mas já descontrolada, nos olhos de James cheios de lágrimas a forçar-se ao metafóricamente inevitável, ao ser penetrado.

Um filme orgânico e emocional onde a ideia de morte está tão subjacente quanto a de vida, a morte presente no caminho de James com um destino final já por ele traçado, a morte na procura de Sofia pelo orgasmo, “La petite mort” em francês, e logo o renascimento e aqui é fulcral “ShortBus”, este espaço imaginado e mapeado numa NY em papel maché. Uma resposta ao “Where is Utopia?” de Thomas More, uma metáfora para essa recusa em responder, representada por uma cidade obra de arte, vista de cima e em maquete, acendendo-se a uma visão que o real não nos permite ter.

“ShortBus”, o espaço, é o autocarro para os dotados e com desafios, como nos diz a sua bela mistress Justin Bond as it self: “You’ve heard of the Big Yellow School Bus? Well, this is the short one. It’s a salon for the gifted and challenged.”, é um lugar heterotópico onde pessoas de todas as raças, identidades de género e identidades sexuais vêm para falar, foder, ver e criar novas ecologias de experiências. Uma heterotopia é um espaço de ordem alternativa em contraste com a ordem mundana e tomada como certa, espaços que nos desafiam, que questionam os limites da nossa imaginação, os nossos medos e os nossos desejos. Foucault define estes espaços como espaços de alteridade e resistência, onde ideias de liberdade e controle são postas em causa; Bataille define como incursão disruptiva do sagrado no espaço dissidente do profano. Lugares em ruptura com o que os rodeia, pelo marginal, radical, transgressor, espaços de ambívalência e diferença.

“O Pessoal é político” (Carol Hanish, 1969), o filme Shortbus põe em causa pessoas, estruturas intimas, emocionais, sexuais e de género diferentes, toca as questões de estruturas de poder e de distribuição em equidade dos índices de satisfação dos indivíduos, o salão Shortbus, lugar Shortbus, é este lugar de reposição e alteridade ao mesmo tempo, espaço transgressivo onde o pessoal deixa de ser privado, torna-se público. E é aqui que aparece o conceito radical e socialmente disruptor de permeabilidade como o caminho para a sanidade, numa intimidade desmontada, aberta ao público, onde tudo e todos são permitidos, com referência a actos considerados marginais pelo mainstream, a sexualidades alternativas, a fisting, anal e vaginal, a BDSM, ao incorporar da menstruação em performances, um lugar de partilha orgíaca e de auto e hetero aceitação.

Explora-se uma multitude de combinações criativas, com material sexual explícito, de uma forma optimista e intrínseca, onde o sexo aparece não apenas com um propósito instrumental, mas para a provocação intelectual e transgressão estética, explícito, in your face, em momentos como o da ejaculação que repinta Pollock, o do ovo vibratório destruído pela peça de arte, o próprio salão ShortBus, espaço de liberdade, arte e performance, espaço de acção criadora. E na medida em que heterotopia permite um modelo de ordem relacional baseado numa ideia de melhoria social poderá ser então um pensamento utópico e ShortBus uma ode à alegre e agridoce libertação do sexo, uma terra da Cocanha onde há um retorno à pureza e abundância para todos, um Éden sem tanta moderação, uma city upon a hill tão livre quanto o hino cantado no momento de rimming mais musical alguma vez visto, onde a ideia essencial é a de entrega directa ao outro, ou outros, é a integração.

Shortbus é um filme redentor.

É dito no filme: “And of course, New York is where everyone comes to be forgiven.”, a sensação do espectador no final é essa, uma sensação de perdão e integração imensa. Uma utopia de amor e excesso, queer pela integração de margens e desejos, de retorno pela rejeição da tecnologia que supostamente nos une mas tantas vezes nos afasta, relembrando um sentido comunitário que pressupõe toque, intimidade, proximidade, real e física. Utopia é também um lugar de esperança e de realização. Sejamos permeáveis então, nunca esquecendo como diz no filme de criar os espaços ” where people are still willing to bend over to let in the new.” Shortbus (2006) John Cameron Mitchell Um filme que aconselhamos ver!

  • artigo originalmente publicado a 28/10/2012

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