Nem Marchas nem deixas Viver: Mete a Colher na Norma

Nem Marchas nem deixas Viver: Mete a Colher na Norma

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De 17 de Maio a 1 de Julho marchou-se em Portugal, em Coimbra, Vila Real, Braga, Setubal, Lisboa, Angra do Heroísmo e Porto. Nestas marchas o passo não obedece a nenhuma banda militar e o camuflado é trocado por muitas cores, plumas e purpurinas.

Mas desengane-se quem parece que vê uma festa, porque nestas marchas fala-se de orgulho, orgulho na resistência. E povoam-nas cartazes com mensagens políticas. E lembra-se uma luta muito antiga, apenas pelo reconhecimento, espaço e sobrevivência. Para que não se rejeite e ameace baseado no género, orientações ou diversidade. Lembrando, entre muitas outras, a revolta de Stonewall em 1969, daí o mês de Junho.

E sem ilusões, ainda há muito para fazer.

A população LGTBQIA+ continua a ser uma das populações mais expostas a violência, precariedade, falta de acessos vários e pobreza.

As mentiras feitas verdades que nos fazem acreditar, que nem questionamos pelo privilégio que usufruímos e damos por garantidas as perguntas que nunca tivemos que fazer. Mas ao outro, ao que por alguma razão estranhamos e pomos fora do nosso normal, fazemos continuamente. Porque apenas a um é dado o privilégio de ser assim, sem se justificar ou defender. De ser essa ideia tão fácil que é o suposto natural.

Vamos então virar o jogo e fazer um teste (atribuído a Martin Rochlin, PhD, Janeiro de 1977):

  • 1. O que achas que te tornou heterossexual?
  • 2. Quando e como decidiste ser heterossexual?
  • 3. É possível que a tua heterossexualidade tenha origem num medo neurótico de pessoas do mesmo género?
  • 4. Se nunca dormiste com alguém do mesmo género, como sabes que não o preferirias?
  • 5. É possível que a tua heterossexualidade seja apenas uma fase que vai passar com o tempo?
  • 6. É possível que tudo o que precises seja um bom amante gay ou uma boa amante lésbica?
  • 7. Se a heterossexualidade é normal, porque é que há um número desproporcionado de pacientes mentais heterossexuais?
  • 8. A quem é que revelaste as tuas tendências heterossexuais? Como é que reagiram?
  • 9. Porque é que os heterossexuais dão tanta importância ao sexo? Porque é que são tão promíscuos?
  • 10. As pessoas heterossexuais odeiam ou não confiam nas pessoas do mesmo género? É isso que as torna heterossexuais?
  • 11. Se tivesses crianças, quererias que fossem heterossexuais sabendo os problemas que enfrentariam?
  • 12. A tua heterossexualidade não me ofende desde que não me tentes impor a tua orientação. Porque é que te sentes compelido ou compelida a seduzir outras pessoas para a tua orientação sexual?
  • 13. A grande maioria de abusadores sexuais de crianças são heterossexuais. Tens a certeza que é seguro expor as tuas crianças a professores ou professoras heterossexuais?
  • 14. Porque é que insistes em ser tão óbvio ou óbvia e fazer da tua heterossexualidade um espectáculo público? Não podes apenas ser quem és e estar quietinho ou quietinha!

 

E o preconceito passa por estas perguntas, que nunca te perguntas, mas insistes em questionar a identidade e orientação dos outros, sempre a meter a colher nas vidas alheias só porque estranhas.

Vive no acto de ficar chocado com a revista popular que apenas mostra o o amor dos outros, ou das outras… Vive na colega que estranhas porque te recusas a assumir que seja tão mulher ou homem, ou humano quanto tu, seja pelas roupas que traja, pela recusa de rótulo, ou apenas pelo que tem entre as pernas, vive na tua recusa em acertar com o pronome certo porque a ti te dá trabalho e te esqueces que ao outro agride.

E talvez até viva no estranhamento das festas do Padre, porque estivessem no apartamento, invadido pela polícia, homens e mulheres era só mais uma indiscrição das que a Igreja sempre nos habituou… afinal tanto padre tem mulheres e família…

E até dizes que tu não, não és preconceituoso, nem te caiu mal a capa da Cristina, cada um faz o que quiser, mas que não seja ao pé de ti… até tens amigos que são…mas nos programas do dia a dia, de manhã à noite, permite-se discurso de ódio constante, como se tratasse apenas de uma opinião e tu ris-te ou ficas calado.

E a bichinha continua a ser criticada, por não ser um gay suficientemente discreto (como se alguém precisasse de ser um heterossexual discreto), demasiado efeminado, a mulher trans rejeitada em demasiados empregos, até porque tantas vezes o nome não bate certo com os papeis ou com a cidadania, o rapaz trans tem demasiadas infecções urinárias porque ir a uma casa de banho é perigo, a galdéria é vaiada nas ruas, pela sua disponibilidade ser em nome próprio e não nos chamamento dos outros, a sapatona é chamada de feia, porque não obedece aos teus predicados, e tantos, muitos outros, são criticados, humilhados, e todos, todos nós temos medo demasiadas vezes, somos demasiadas vezes agredidos, e tantas vezes mortos, porque não cabemos na tua caixa, na tua norma pequenina… e tu ris-te ou ficas calada.

Mais que mais amor, ou a tão louvada tolerância, mais empatia, mais respeito, por favor. Mais decência e coragem por um mundo melhor… para todas/os/es!

  • Ilustração Candy – Espiga Design
  • artigo originalmente publicado no site IMPALA

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