Sobre as 50 Sombras de Grey

Sobre as 50 Sombras de Grey

* eng version soon

**Este artigo tem o uso deliberado e já convencionado para fugir a uma masculinização ou feminização do género de uma palavra que se refira a um conjunto (no caso de pessoas) usando a letra x.

Na eminência do dia 1 de Abril, dediquei-me a ler de uma ponta à outra o que suspeitava ser uma das maiores mentiras do ano que passou, pintado como o romance mais escaldante, ou o primeiro de uma trilogia bem vendida, e que criou o estilo Porno para mamãs: 50 sombras de Grey.
Seguem-se, enumerados e enlistados os vários comentários que foram surgindo:
1-Primeiro ao sexo;

a) Talvez não saiba muito de Bdsm, posso ser uma muito ocasional praticante e definitivamente não me considero uma expert, mas de B, D, D, S, S ou M o livro parece ter muito pouco… umas amarradelas ocasionais (com uma divertida spreadeagle que não leva a grande lado), um tau tau que vai só até ao rabo rosado (!!!! rabo ROSADINHO!!! QUE MENINXS!!)!, um contracto extensivo e ABORRECIDO que nunca chega a ser cumprido, e muito mas muito sexo demasiado baunilha, perde-se muito para uma prática que é interessante também pelo prazer de fugir a genitalidades e penetrações… em todas as passagens deste livro com sexo, o sexo é penetração genital, sempre com vigorosas penetrações… mais normativo???!!!

b) nenhum tabu social me parece realmente quebrado… (caraças, ainda tive esperança que na cena com menstruação o moço lhe comesse o pipi – escandalizando o público em geral, no qual por acaso me incluo…).

c)também me intriga esta distinção entre o amorzinho e o foder… e um foder que é considerado não baunilha… caraças já sabemos que a maior parte do pessoal que anda para aí curte os vários outros sabores da baskin’n’robins, mas para a senhora James somos todos uns taradões bem torcidinhos, por andarmos a foder q nem uns tontinhos… (já agora…. uma questão que me intriga imensamente, como é que vocês distinguem foder de amorzinho? eu, na minha vida pessoal, não faço essa distinção, pelo menos não pelo comportamento que adopto na horizontal/ vertical/ de 4…)

d) (e esta refere-se tanto aos actos quanto à escrita) há imensa foda, foder, fodo-te neste livro (escrito… as palavras, sim!), mas para a senhora E.L.James (e corrijam-me se me estiver escapado algo) só existem as palavras clitóris e sexo… não há pau, caralho, pila, piça… raios… pénis?!! nem vulva, vagina, cona, rata, pombinha, passarinha, nem qualquer outro inha que até aligeirasse as coisas…

e) também a deusa interior da rapariga protagonista me parece algo que ela indevidamente está a confundir… parece-me mais referir a tusa, tesão, vontade… algo assim….

f) 90% das vezes que o rapaz a penetra há o AVISO PRÉVIO que a vai POSSUIR… cliché much???

2 – As personagens:

a) a Anastacia é uma Amélinha com sorte… é virgem, nunca bateu uma, não tem grande acesso (ou curiosidade) a porno na net (aliás às vezes questiono-me se internet sequer… dado que o primeiro endereço de email que tem é montado pelo seu novo Amigo…. estranho… a rapariga está a acabar um curso universitário… eu tinha que usar o meu email na faculdade… para as aulas…) E VEM-SE LOGO QUE NEM UMA CADELA!!! melhor… o primeiro broche que faz é com garganta funda e nota máxima… pah… HÁ GENTE QUE NASCE ENSINADA!

b) o Grey é simplesmente chalado, um tipo controlador, com um quê  bastante grande de assustador que exige ser apresentado aos pais (aparecendo do nada) nas primeiras semanas de namoro (?! ou algo assim), oferece carro, computador e smartphone à moça para saber onde ela está… e descobre as várias moradas de casas que habita e frequenta… (caso para pedir uma ordem de restrição a 15km, não???). É o limiar entre o romântico rapidamente se revelando um caso de personalidade limítrofe assustadora… que rapariguinha não consideraria isso encantador? ah! Cada vez que a rapariga abraça um moço os músculos dele contraem involuntariamente! Curtes espasmos? 🙂
ENTRISTECE-me especialmente que um praticante de BDSM tenha que ter traumas de infância f*****, desordens de personalidade não relacionadas com sexo e um comportamento relacional simplesmente NÃO ACEITÁVEL para se tornar protagonista de um best seller… gente que conheço assumidamente envolvida e praticantes de BDSM têm a cabeça desempoeirada, relações estáveis e são emocionalmente equilibradxs…

3- Quanto ao livro como livro – escrita:
daqueles que se lêem bem à lareira, tipo Harry Potter (embora me pareça que o harryzinho estava mais bem, mas bem mais, escrito) com muitas interjeições tipo UAU!b) uma narrativa em que estive sempre a ver quando é que aquilo apimentava a sério, muito muito muito romance cor de rosa, poucos cinzas…
c) a tradução está espectacular, traduz bricolage para bricolagem e no parágrafo seguinte utiliza jeans em vez de calças de ganga…

Comentários à parte:
embora louve o conhecimento em relação a dst’s e mençao a testes ou a pilula nos USA funciona logo automaticamente no primeiro mês (as que eu tomava aqui no primeiro mês ainda era preciso ter cuidado) ou no segundo volume a Amélia, ups! Anastacia, vai ter um pãozinho no forno;
ler os outros volumes… e o conhecimento que são 3 é prática séria de Masoquismo… mas daquele que o prazer não compensa…  este primeiro tem QUINHENTAS E PICOS páginas de pastelão… imaginem… eu quando me quero lembrar do nome da autora só me ocorre DANIELLE STEEL…

*  Artigo publicado na Agenda Kinky de Maio de 2013.

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