{"id":4390,"date":"2020-05-05T00:11:00","date_gmt":"2020-05-05T00:11:00","guid":{"rendered":"https:\/\/carmogepereira.pt\/vaiserperfeito\/2022\/08\/29\/copia-o-manifesto-das-pessoas-solteiras\/"},"modified":"2022-08-30T00:33:18","modified_gmt":"2022-08-30T00:33:18","slug":"ivgemtemposdecovid","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/carmogepereira.pt\/pt\/ivgemtemposdecovid\/","title":{"rendered":"IVG em tempos de COVID \u2013 Um depoimento por Alice"},"content":{"rendered":"<p><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-medium\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"300\" height=\"296\" src=\"https:\/\/carmogepereira.pt\/vaiserperfeito\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/96390013_244384000117716_7421229808429826048_n-800x790-1-300x296.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4392\" srcset=\"https:\/\/carmogepereira.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/96390013_244384000117716_7421229808429826048_n-800x790-1-300x296.jpg 300w, https:\/\/carmogepereira.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/96390013_244384000117716_7421229808429826048_n-800x790-1-768x758.jpg 768w, https:\/\/carmogepereira.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/96390013_244384000117716_7421229808429826048_n-800x790-1-12x12.jpg 12w, https:\/\/carmogepereira.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/96390013_244384000117716_7421229808429826048_n-800x790-1-100x100.jpg 100w, https:\/\/carmogepereira.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/96390013_244384000117716_7421229808429826048_n-800x790-1-50x50.jpg 50w, https:\/\/carmogepereira.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/96390013_244384000117716_7421229808429826048_n-800x790-1.jpg 800w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n<p><em>\u2018Beb\u00e9s Corona\u2019 n\u00e3o ser\u00e3o uma consequ\u00eancia de algumas pessoas virem a ter mais sexo em quarentena, mas v\u00e3o ser uma consequ\u00eancia do facto de muitas mulherxs verem impedido o seu direito ao aborto seguro durante o confinamento: uma hist\u00f3ria do meu aborto durante a pandemia do Covid-19.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Era fevereiro de 2007 e eu estava prestes a fazer doze anos quando a interrup\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria da gravidez foi despenalizada em Portugal. Menstruei pela primeira vez no ver\u00e3o anterior, numa viagem de autocarro entre Lisboa e Albufeira. Vi o meu primeiro per\u00edodo na casa de banho de uma gasolineira algures no Alentejo, e com aquela mancha, a realiza\u00e7\u00e3o do potencial reprodutivo do meu corpo. Nunca, desde essa altura, me lembro de ter desejado reproduzir.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos meses que se seguiram, campanhas a favor e contra a despenaliza\u00e7\u00e3o do aborto inundaram os \u00f3rg\u00e3os de informa\u00e7\u00e3o. V\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es de mulheres \u00e0 minha volta come\u00e7aram a falar abertamente das suas experi\u00eancias pessoais com gesta\u00e7\u00e3o indesejada e aborto ilegal. Pedi \u00e0 minha m\u00e3e para a acompanhar \u00e0 urna no dia do referendo. Lembro-me do sentimento generalizado de al\u00edvio entre as mulheres da minha fam\u00edlia com a vit\u00f3ria do sim. Tinham passado trinta e tr\u00eas anos desde a revolu\u00e7\u00e3o de 1974.<\/p>\n\n\n\n<p>Treze anos depois, no dia 30 de Janeiro de 2020, a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade declarava a pandemia do COVID-19 como Emerg\u00eancia de Sa\u00fade P\u00fablica Internacional. Um m\u00eas e meio mais tarde, \u00e0 meia-noite do meu vig\u00e9simo-quinto anivers\u00e1rio o Presidente da Rep\u00fablica Portuguesa Marcelo Rebelo de Sousa declarava Estado de Emerg\u00eancia. Eu estava gr\u00e1vida h\u00e1 oito semanas, e h\u00e1 cinco num processo moroso, confuso e extenuante de tentativa de acesso a uma interrup\u00e7\u00e3o da gravidez segura e atempada pelo Servi\u00e7o Nacional de Sa\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos \u00faltimos anos tenho vivido na Holanda, que em 1984 se tornou um dos primeiros pa\u00edses da Europa a legalizar a IVG. Com um per\u00edodo de toler\u00e2ncia alargado \u2013 at\u00e9 \u00e0s 21 semanas de gesta\u00e7\u00e3o versus as 10 semanas em Portugal \u2013 o acesso ao aborto na Holanda \u00e9 reconhecidamente r\u00e1pido, seguro e de acesso universal. Igualmente, muito devido \u00e0 minha viv\u00eancia dos discursos em torno do referendo, sempre confiei que o acesso em Portugal funcionasse de forma semelhante. Nunca tinha ouvido depoimentos do contr\u00e1rio. Este ano por exemplo, no anivers\u00e1rio da despenaliza\u00e7\u00e3o, a deputada do PS Isabel Moreira orgulhava-se de declarar no Parlamento que ao contr\u00e1rio das ansiedades da Direita, as percentagens de abortos realizados em Portugal tinham decrescido progressivamente desde 2015. Que nos pod\u00edamos orgulhar de como o acesso seguro e universal ao aborto at\u00e9 \u00e0s dez semanas eliminou a terceira maior causa de morte em mulherxs, o aborto clandestino. Estas declara\u00e7\u00f5es tranquilizavam-me quanto \u00e0 possibilidade de eu, ou outra mulhxr perto de mim ter de recorrer um dia \u00e0 IVG em Portugal.<\/p>\n\n\n\n<p>A realidade com que me deparei foi, no entanto, bastante diferente.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Semana 3 \u2013 O Centro de Sa\u00fade<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Descobri que estava gr\u00e1vida na mesma semana em que o per\u00edodo me faltou. Nesse mesmo dia contactei o meu Centro de Sa\u00fade que me encaminhou para a m\u00e9dica de fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p>Dois dias depois, no consult\u00f3rio, a m\u00e9dica informa-me e ao meu companheiro que o meu pedido seria transferido para o Hospital de Santa Maria. E que do hospital poderiam demorar at\u00e9 duas semanas a contactar-me. Fiz as contas: em duas semanas estaria na quinta semana de gesta\u00e7\u00e3o, metade do prazo legal. N\u00e3o estava psicologicamente apta a esperar tanto tempo. Acreditava que se expusesse a urg\u00eancia psicol\u00f3gica da minha situa\u00e7\u00e3o, o processo seria certamente acelerado. Nessa tarde telefonei para o hospital a insistir na brevidade de uma ecografia e foi-me marcada para a mesma semana.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Semana 4 \u2013 A Ecografia&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No Hospital de Santa Maria eu e o meu companheiro estamos h\u00e1 cerca de uma hora a aguardar para que eu seja chamada. As paredes cinzentas est\u00e3o decoradas com posters e panfletos dirigidos a mulherxs em processos de gesta\u00e7\u00e3o desejados. Um poster mostra v\u00e1rias perspectivas ecogr\u00e1ficas de um feto desenvolvido, e nas extremidades l\u00ea-se \u201cos nossos beb\u00e9s s\u00e3o t\u00e3o fofos\u201d. Nada indicava que naquela mesma sala de espera, todas as quartas e sextas-feiras, se sentariam mulherxs a gestar involuntariamente. A quest\u00e3o aqui n\u00e3o seria tanto porqu\u00ea juntar debaixo do mesmo teto mulherxs que desejam a gesta\u00e7\u00e3o com outras que n\u00e3o a desejam. O problema prende-se pela displic\u00eancia com que o departamento de Obstetr\u00edcia de um hospital p\u00fablico, com este gesto aparentemente inocente, trata as mulherxs que n\u00e3o querem gestar como uma inconveni\u00eancia, e moraliza a sua decis\u00e3o por vias indiretas\u2013sobrevalorizando a decis\u00e3o de mulherxs com gravidezes desejadas. Para n\u00e3o falar de desresponsabiliza\u00e7\u00e3o: estas imagens de glorifica\u00e7\u00e3o da gravidez e reprodu\u00e7\u00e3o ser\u00e3o certamente pass\u00edveis de causar extremo transtorno psicol\u00f3gico a mulherxs que procurem a IVG, que para as quais, ao contr\u00e1rio de mim, a decis\u00e3o de interromper a gravidez n\u00e3o seja t\u00e3o linear, que poderiam desejar uma gravidez n\u00e3o fosse por impedimentos socioecon\u00f3micos, emocionais ou outros.<\/p>\n\n\n\n<p>A ecografia foi r\u00e1pida. O m\u00e9dico n\u00e3o conseguiu detetar o embri\u00e3o, mas o saco gestacional confirmava a gravidez. \u201cVai ter de voltar a fazer a ecografia. S\u00f3 quando o embri\u00e3o for vis\u00edvel \u00e9 que vamos poder saber se a gravidez \u00e9 evolutiva. E s\u00f3 com esse avalo poder\u00e1 avan\u00e7ar para a IVG. Volte em duas semanas.\u201d Sa\u00ed com um n\u00f3 no est\u00f4mago. Pensava no caso que conhecia de uma amiga na Holanda que tinha feito uma interrup\u00e7\u00e3o medicamentosa segura na quarta semana de gravidez. N\u00e3o me foi oferecido apoio psicol\u00f3gico como previsto por lei.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes de comparecer ao Santa Maria tinha lido as diretrizes da Dire\u00e7\u00e3o Geral de Sa\u00fade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Interrup\u00e7\u00e3o Volunt\u00e1ria da Gravidez: uma consulta pr\u00e9via deveria sempre ser o primeiro passo do processo, logo ap\u00f3s, e idealmente no mesmo dia em que a mulhxr faz a primeira ecografia. \u00c9 nesta consulta que a utente deveria ser inteirada em rela\u00e7\u00e3o ao processo de IVG de modo a tomar uma decis\u00e3o informada. Nesta consulta seriam discutidos quais os passos que se iriam seguir no processo, os&nbsp;<em>timings<\/em>&nbsp;dos mesmos e seria oferecido apoio psicol\u00f3gico se requisitado. Sem ter tido acesso a nada que se parecesse, sa\u00ed do hospital ansiosa e \u00e0s escuras. Como eu, certamente outras dezenas de mulherxs.<\/p>\n\n\n\n<p>Num desses dias que me pareceram demasiado longos, telefonei para o meu seguro de sa\u00fade na Holanda. N\u00e3o cobravam despesas de IVG noutros pa\u00edses e aconselharam-me vivamente a voar de volta para Amsterd\u00e3o para realizar a interrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Semana 6 \u2013 A segunda ecografia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Duas semanas mais tarde volt\u00e1mos \u00e0 sala de espera com as fotos de beb\u00e9s n\u00e3o solicitadas. Dentro do consult\u00f3rio pedi para que n\u00e3o me mostrassem imagens da ecografia. Acederam. Estava a gestar h\u00e1 exatamente seis semanas e um dia e a gravidez seria evolutiva. Depois de desentendimentos com a secretaria, a consulta pr\u00e9via de IVG, que friso, deveria ter sido o primeiro passo do processo, foi-me finalmente marcada para a semana seguinte: \u201cmas vai ter de ser logo \u00e0s oito e meia da manh\u00e3, \u00e9 a \u00fanica vaga que temos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Semana 7 \u2013 A consulta pr\u00e9via de IVG<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Nessa manh\u00e3 de quarta-feira, chegados \u00e0 secretaria de Obstetr\u00edcia informam-nos que a minha consulta tinha sido adiada. \u201cT\u00eam-nos chegado muitos casos de gravidezes muito mais avan\u00e7adas do que a sua. Temos de prioritizar. A sua consulta foi remarcada para a semana\u201d. Protest\u00e1mos. Ainda que solid\u00e1ria para com outras mulherxs em situa\u00e7\u00f5es mais avan\u00e7adas, insisto para ter a consulta nesse dia. As consequ\u00eancias da m\u00e1 de gest\u00e3o de recursos do hospital n\u00e3o deveria recair sobre as utentes. Disseram-me que fosse \u201cl\u00e1 abaixo falar com a enfermeira\u201d. N\u00f3s fomos. Depois de exp\u00f4r a minha situa\u00e7\u00e3o a enfermeira aceita fazer-me a consulta. J\u00e1 usava m\u00e1scara protetora.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA ecografia acusou seis semanas e um dia, por isso agora estar\u00e1 com\u2026\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cSete semanas e dois dias.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cExatamente. J\u00e1 esteve gr\u00e1vida antes?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cN\u00e3o.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de me guiar e ao meu companheiro pelas v\u00e1rias op\u00e7\u00f5es contraceptivas hormonais, passou a explicar-me o processo de IVG. No Santa Maria s\u00f3 praticavam interrup\u00e7\u00f5es medicamentosas. Tomaria um comprimido no hospital e outro em casa. Ia sangrar e era poss\u00edvel que tivesse dores fortes semelhantes a c\u00f3licas menstruais.<\/p>\n\n\n\n<p>A enfermeira informou-me que as IVGs no hospital normalmente s\u00f3 aconteciam na nona semana de gesta\u00e7\u00e3o. S\u00f3 tinham uma m\u00e9dica deslocada para IVG. \u201cE eu sou a \u00fanica enfermeira a fazer estas consultas. Se uma de n\u00f3s adoecer com o v\u00edrus n\u00e3o sei como vai ser\u201d. Uma m\u00e9dica que se ocupava tamb\u00e9m com as urg\u00eancias de obstetr\u00edcia. Uma enfermeira que assistia com tudo o resto no departamento.<\/p>\n\n\n\n<p>A IVG foi-me marcada para dia 30 de Mar\u00e7o, no limite da minha d\u00e9cima semana de gesta\u00e7\u00e3o. Exausta, expliquei que estava j\u00e1 h\u00e1 um m\u00eas a tentar interromper a gravidez. Que era inadmiss\u00edvel que me atirassem para o limite legal. A enfermeira compreendeu mas n\u00e3o havia nada a fazer. Quando sa\u00ed do consult\u00f3rio uma fila de mulherxs esperavam pela mesma consulta. Uma rapariga jovem, certamente abaixo dos 20 anos, aproximou-se para me perguntar se eu sabia se faziam a interrup\u00e7\u00e3o nesse mesmo dia. Ningu\u00e9m lhe tinha explicado os passos do processo e estava na ignor\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p>As fronteiras tinham fechado oficialmente nessa semana e voar para a Holanda j\u00e1 n\u00e3o era uma op\u00e7\u00e3o. Assustados com as not\u00edcias da propaga\u00e7\u00e3o do v\u00edrus na Europa e em Portugal eu e o meu companheiro come\u00e7\u00e1mos a considerar a possibilidade de reiniciar o processo no privado. Sab\u00edamos que a Cl\u00ednica dos Arcos realizava 75% das IVGs em Portugal. L\u00e1 respeitavam os prazos previstos por lei e poderia fazer a IVG mais cedo. Marc\u00e1mos consulta para essa mesma semana.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Semana 8 \u2013 O privado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para evitar o cont\u00e1gio pelo Covid-19 a Cl\u00ednica dos Arcos n\u00e3o permitia que as mulherxs entrassem acompanhadas. Ao contr\u00e1rio do Hospital de Santa Maria, s\u00f3 estavam a praticar IVGs cir\u00fargicas, consideradas mais eficazes, de modo a evitarem que as mulheres tivessem de voltar \u00e0 cl\u00ednica. No dia anterior tinha sido declarado Estado de Emerg\u00eancia. Todas as trabalhadoras da cl\u00ednica usavam m\u00e1scara e era-me pedido que desinfetasse as m\u00e3os antes de tocar no que quer que fosse.<\/p>\n\n\n\n<p>O processo foi o que eu sempre esperei do servi\u00e7o p\u00fablico: a ecografia, as an\u00e1lises de sangue e a consulta pr\u00e9via de IVG aconteceram no mesmo dia, tudo no prazo de uma hora. Perguntei \u00e0 m\u00e9dica que me aconselhou nesse dia se a cl\u00ednica estava em risco de fechar. \u201cN\u00e3o sabemos. Honestamente ontem pensei que sim. Hoje j\u00e1 estou mais convencida que n\u00e3o. Vamos ver. No entanto se algu\u00e9m do nosso&nbsp;<em>staff&nbsp;<\/em>adoecer teremos de encerrar\u201d. Marcou-me a IVG para 3 dias \u00fateis depois, respeitando a obriga\u00e7\u00e3o legal do per\u00edodo de reflex\u00e3o. Segundo a lei n\u00ba 16\/2007, n\u00e3o podem passar mais de 5 dias desde que a mulher requisita uma IVG e a consulta pr\u00e9via. No hospital p\u00fablico tive de esperar tr\u00eas semanas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Semana 9 \u2013 A Interrup\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Com hospitais em que quase todos os m\u00e9dicos ginecologistas s\u00e3o objetores de consci\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 IVG, ou mais grave ainda, objetores de consci\u00eancia n\u00e3o declarados, o Hospital de Santa Maria acaba por comportar todos os casos da Grande Lisboa. Quando o Santa Maria n\u00e3o consegue comportar o n\u00famero de utentes que se v\u00ea obrigado a afunilar no limite do prazo legal, estas s\u00e3o encaminhadas para a Cl\u00ednica dos Arcos a custo do pr\u00f3prio Hospital. Isto, num contexto normal, sem a amea\u00e7a de uma pandemia global. A situa\u00e7\u00e3o da IVG em Portugal ecoa os problemas sist\u00e9micos do Servi\u00e7o Nacional de Sa\u00fade: o Estado faz uma escolha determinada de investir dinheiro, por vias secund\u00e1rias, no privado ao inv\u00e9s de contratar profissionais de sa\u00fade para o p\u00fablico. Prefere restringir utentes ao Hospital de Santa Maria em vez de contratar m\u00e9dicos e enfermeiros n\u00e3o objetores de consci\u00eancia para fazerem consultas de IVG noutros hospitais da regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>No dia da interrup\u00e7\u00e3o, uma amiga conduziu-me e ao meu companheiro at\u00e9 \u00e0 porta da cl\u00ednica. Eu tive de entrar sozinha e esperar para ser chamada. Tinha requisitado uma IVG cir\u00fargica com anestesia total, mas no momento de pagar a interven\u00e7\u00e3o \u2013 uns 475\u20ac, que ao contr\u00e1rio de muitas mulheres gozo do privil\u00e9gio de poder despender \u2013 informaram-me que devido ao fecho de fronteiras tinham esgotado as anestesias gerais e que n\u00e3o havia perspectiva de quando as voltariam a receber. Aceitei permanecer consciente durante o procedimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Fui chamada. A anestesia local era forte e adormeceu-me completamente. Acordei na sala de recupera\u00e7\u00e3o, ao lado de outras mulherxs. N\u00e3o sentia dores. O enfermeiro informou-me que o procedimento tinha corrido muito bem e ofereceram-me um sumo da Compal. Tive alta dez minutos depois e x minhe companheire veio buscar-me \u00e0 cl\u00ednica para irmos para casa.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O Rescaldo&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Durante as semanas em que soube que estava gr\u00e1vida s\u00f3 partilhei o assunto com o meu companheiro, umx amigxs em Lisboa e duas amigas na Holanda. Embora soubesse que tanto a minha fam\u00edlia como xs minhxs amigxs seriam encorajadorxs e carinhosxs n\u00e3o queria que ningu\u00e9m me lembrasse que estava gr\u00e1vida. A percep\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o parasit\u00e1ria que estava a acontecer no meu corpo contra a minha vontade foi provavelmente o processo mais violento por que passei a n\u00edvel metab\u00f3lico, psicol\u00f3gico e pol\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos dias antes de abortar, comecei a contactar v\u00e1rias pessoas e entidades, a informar do estado priclitante da IVG num Portugal em Estado de Emerg\u00eancia. Contactei a editora deste blog que ofereceu apoio imediato e me prop\u00f4s que escrevesse este texto. Contactei o Bloco de Esquerda que encaminhou o meu depoimento ao Parlamento de imediato. E escrevi \u00e0 deputada Isabel Moreira, que n\u00e3o s\u00f3 me respondeu como contactou a Ministra da Sa\u00fade no mesmo dia. Agrade\u00e7o a todxs a urg\u00eancia com que agiram perante o meu depoimento: a IVG foi declarada como urg\u00eancia m\u00e9dica pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade tr\u00eas dias antes de eu realizar a minha interven\u00e7\u00e3o. Simultaneamente, cada vez mais not\u00edcias come\u00e7aram a surgir de mulherxs que, tanto na Europa como nos Estados Unidos, estavam a ver restringido e muitas vezes impedido o seu direito ao aborto legal e seguro. No que respeita estes casos, as medidas de conten\u00e7\u00e3o contra o Covid-19 s\u00e3o uma desculpa ideol\u00f3gica e n\u00e3o uma consequ\u00eancia imunol\u00f3gica.<\/p>\n\n\n\n<p>O que significa uma pol\u00edtica de sa\u00fade p\u00fablica que decide quais as amea\u00e7as imunol\u00f3gicas para um corpo, em detrimento de outras? Em menos de tr\u00eas meses, a calamidade planet\u00e1ria causada pela pandemia do v\u00edrus do Covid-19 foi capaz de recentrar pol\u00edticas globais no corpo e na sa\u00fade das comunidades. N\u00e3o ser\u00e1 ent\u00e3o a imposi\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica e reprodutiva da mulhxr, alimentada por bio-pol\u00edticas patriarcais, que continuamente mata, estigmatiza e criminaliza milhares de mulherxs em todo o mundo, tamb\u00e9m uma emerg\u00eancia de sa\u00fade planet\u00e1ria hist\u00f3rica?<\/p>\n\n\n\n<p>Nas primeiras semanas de isolamento social na Europa e nos Estados Unidos, li v\u00e1rios coment\u00e1rios online que previam um&nbsp;<em>boom<\/em>&nbsp;de natalidade depois do per\u00edodo de quarentena.&nbsp;<em>Corona babies<\/em>. Assumia-se que v\u00e1rios casais \u2013 assumidamente heterossexuais \u2013 teriam mais tempo para fazer sexo e consequentemente reproduzir. H\u00e1 muitos problemas com esta assun\u00e7\u00e3o, desde a fantasia do regresso triunfante da fam\u00edlia nuclear depois do apocalipse, \u00e0 associa\u00e7\u00e3o de sexualidade a sexo heterossexual e reprodutivo. Mas um ponto em particular assombrou-me, como um fantasma: a normaliza\u00e7\u00e3o do que seria a dificuldade ou impossibilita\u00e7\u00e3o de acesso ou a contracep\u00e7\u00e3o ou a aborto seguro durante uma crise de sa\u00fade p\u00fablica. Uma gravidez indesejada seria um mal menor e uma consequ\u00eancia esperada do que muitxs chamam o apocalipse. Mais uma vez parece-me importante lembrar que o fim do mundo j\u00e1 aconteceu v\u00e1rias vezes, e que se perpetua, de forma sist\u00e9mica, durante a vida de muitos corpos.<\/p>\n\n\n\n<p>Alice<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>`Beb\u00e9s Corona\u2019 n\u00e3o ser\u00e3o uma consequ\u00eancia de algumas pessoas virem a ter mais sexo em quarentena, mas v\u00e3o ser uma consequ\u00eancia do facto de muitas mulherxs verem impedido o seu direito ao aborto seguro durante o confinamento: uma hist\u00f3ria do meu aborto durante a pandemia do Covid-19.<\/p>","protected":false},"author":1,"featured_media":4392,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"video","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[80],"tags":[196,100,192,94],"class_list":["post-4390","post","type-post","status-publish","format-video","has-post-thumbnail","hentry","category-articles","tag-abortion","tag-covid","tag-feminism","tag-manifestos","post_format-post-format-video","nt-post-class","","masonry-item","col-lg-6"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/carmogepereira.pt\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4390","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/carmogepereira.pt\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/carmogepereira.pt\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/carmogepereira.pt\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/carmogepereira.pt\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4390"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/carmogepereira.pt\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4390\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/carmogepereira.pt\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4392"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/carmogepereira.pt\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4390"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/carmogepereira.pt\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4390"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/carmogepereira.pt\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4390"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}