{"id":4412,"date":"2016-03-08T01:04:00","date_gmt":"2016-03-08T01:04:00","guid":{"rendered":"https:\/\/carmogepereira.pt\/vaiserperfeito\/2022\/08\/29\/copia-o-manifesto-das-pessoas-solteiras\/"},"modified":"2022-08-30T00:42:02","modified_gmt":"2022-08-30T00:42:02","slug":"8demarco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/carmogepereira.pt\/pt\/8demarco\/","title":{"rendered":"A 8 de Mar\u00e7o n\u00e3o comemoro"},"content":{"rendered":"<p><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-medium\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"228\" height=\"300\" src=\"https:\/\/carmogepereira.pt\/vaiserperfeito\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/wewilldoit-600x790-1-228x300.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4413\" srcset=\"https:\/\/carmogepereira.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/wewilldoit-600x790-1-228x300.jpg 228w, https:\/\/carmogepereira.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/wewilldoit-600x790-1-9x12.jpg 9w, https:\/\/carmogepereira.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/wewilldoit-600x790-1.jpg 600w\" sizes=\"(max-width: 228px) 100vw, 228px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Mas luto, luto todos os dias. E da minha posi\u00e7\u00e3o de branca, prec\u00e1ria e inst\u00e1vel, percepcionada como cis*, num pa\u00eds em crise e com machismo abundante, eu, reconhe\u00e7o-me como privilegiada. Tive acesso a uma educa\u00e7\u00e3o superior, a um sistema financeiro que me permitiu pedir quando precisava. N\u00e3o tive dias de fome, e os de aperto que tive foi maioritariamente por m\u00e1 gest\u00e3o minha. Tive acesso a trabalhos, mais ou menos prec\u00e1rios, de copas a secret\u00e1rias, passei por v\u00e1rios s\u00edtios com a consci\u00eancia do tempor\u00e1rio por estar par a par a lutar por um projecto meu. Porque podia. As duplas jornadas que fiz foi por desorganiza\u00e7\u00e3o ou leves per\u00edodos de muito trabalho e n\u00e3o por ter a meu cargo uma fam\u00edlia, filhos, marido e press\u00e3o.<br>Vivo num pa\u00eds onde posso abortar, protegida e n\u00e3o acusada pela lei desde 2006, mesmo com alguns profissionais com preconceitos e sectores pol\u00edticos que me querem retirar o que \u00e9 meu por direito.<br>Cresci numa fam\u00edlia que me ensinou a perante todos os g\u00e9neros ter uma voz parit\u00e1ria, cresci, cres\u00e7o, rodeada de pessoas fortes que n\u00e3o tiveram medo, ou que o enfrentaram bem, de desafiar as curtas conven\u00e7\u00f5es sociais que lhes impunham e de reclamarem o seu lugar e direito a existir perante o mundo. Sinto isso em debates, quando n\u00e3o me acanho e &#8220;falo tanto e t\u00e3o alto como qualquer homem&#8221;. A minha opini\u00e3o foi-me ensinada como mais do que permitida, importante.<br>Agrade\u00e7o a todxs as que lutaram pelos direitos que tenho hoje consagrados. Celebro-os todos os dias, ao exerc\u00ea-los.<br>Rodeio-me de redes de afectos, dentro e fora do activismo, que tamb\u00e9m \u00e9 feito com muito mimo e amor, que me d\u00e3o for\u00e7as para ser auto-determinada, fiel aos meus princ\u00edpios e atenta. Atenta aos privil\u00e9gios que tenho e aos que me foram negados. Atenta \u00e0 linguagem que utilizo e ao que fa\u00e7o de forma a contribuir para um mundo mais justo. Atenta e agradecida pelas v\u00e1rias correc\u00e7\u00f5es que me v\u00e3o fazendo uma pessoa mais completa.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a minha pol\u00edtica, reservo-me o direito de a fazer com raiva. E como poderia ser de outra maneira, se j\u00e1 n\u00e3o tenho dedos das m\u00e3os para contar hist\u00f3rias de viola\u00e7\u00f5es e abusos sexuais de mulheres ou pessoas trans ditas em nome pr\u00f3prio. Se j\u00e1 s\u00e3o incont\u00e1veis as hist\u00f3rias de viol\u00eancia f\u00edsica de amigxs, das m\u00e3es, da peixeira que se senta ao meu lado na esta\u00e7\u00e3o de Gaia e me conta o quanto apanhava do primeiro marido, das demasiadas postagens em grupos de apoio em redes sociais dos namorados ou maridos que insultam, batem, humilham&#8230; Das que s\u00e3o denegridas dentro da pr\u00f3pria casa, isoladas, desacreditadas como se o \u00fanico destino poss\u00edvel fosse o suic\u00eddio.<br>Enraivece-me que seja um privil\u00e9gio chegar aos 33, como eu, sem nunca ter sido psicologicamente ou fisicamente abusada, batida, violada.<br>Enraivecem-me as mulheres sem sa\u00edda, as irm\u00e3s e irm\u00e3os trans que todos os dias s\u00e3o mortas ou se matam e cuja esperan\u00e7a m\u00e9dia de vida \u00e9 digna da Idade M\u00e9dia.<br>Enraivece-me um mundo onde a masculinidade t\u00f3xica faz v\u00edtimas em todas as barricadas. Onde um gay s\u00f3 pode ser macho e normativo, porque as bichinhas est\u00e3o mais pr\u00f3ximas daquilo que consideramos feminino, e o feminino ainda \u00e9 reprov\u00e1vel. D\u00e3o-me raiva os apupos constantes, o ass\u00e9dio de rua que tivemos que esperar at\u00e9 2016 para que fosse considerado crime, perante sectores pol\u00edticos que ainda acham que \u00e9 um exagero esta queixa de sair \u00e0 rua e sentir constante risco de vida.<br>Enraivecem-me a falta de representatividade e de voz, que as hist\u00f3rias de sucesso sejam hist\u00f3rias de sucesso, casos excepcionais e n\u00e3o a regra, a diferen\u00e7a salarial e a dupla jornada. E a distribui\u00e7\u00e3o de riqueza? Como se explica um mundo onde um g\u00e9nero em tantos pa\u00edses ainda carrega nas costas demasiado trabalho e t\u00e3o pouca riqueza.<br>Enraivece-me que n\u00e3o se reconhe\u00e7a que h\u00e1 um problema com trabalho e capitalismo. E que precisamos de garantir condi\u00e7\u00f5es de base iguais a todos. Reconhecer o trabalho sexual como trabalho, porque est\u00e1 l\u00e1, quer fechemos os olhos ou n\u00e3o e distingui-lo de tr\u00e1fico humano e escravatura que s\u00e3o feitos quer nos bord\u00e9is quer nas f\u00e1bricas de roupa que meio mundo, onde com pena me incluo, veste, cal\u00e7a e consome. Enraivecem-me os casamentos e as mi\u00fadas que s\u00e3o vendidas, os corpos que s\u00e3o mutilados e os tantos corpos que continuam a ser controlados por um estado, uma igreja ou um mercado.<br>Enraivece-me tudo isto e mais, correndo o risco de ser esgani\u00e7ada, descontrolada, hist\u00e9rica, digo-vos, n\u00e3o vou parar de gritar enquanto n\u00e3o pararmos de ser mortxs. Enquanto precisarmos de estar com um homem para n\u00e3o estar sozinhas. E como eu, h\u00e1 muitxs. Porque no meio disto, chamando-me o que quiserem, sou apenas mais uma, e pequena, LUTADORE.<\/p>\n\n\n\n<p>*cis ou cis-g\u00e9nero &#8211; uma pessoa cujo g\u00e9nero assignado \u00e0 nascen\u00e7a corresponde \u00e0 identidade de g\u00e9nero que vive.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mas luto, luto todos os dias. 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