{"id":4482,"date":"2012-10-28T03:19:51","date_gmt":"2012-10-28T03:19:51","guid":{"rendered":"https:\/\/carmogepereira.pt\/vaiserperfeito\/2022\/08\/29\/copia-sobre-as-50-sombras-de-grey\/"},"modified":"2022-08-30T01:07:26","modified_gmt":"2022-08-30T01:07:26","slug":"shortbusreview","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/carmogepereira.pt\/pt\/shortbusreview\/","title":{"rendered":"Short Bus: Constru\u00e7\u00e3o de uma nova utopia sexual"},"content":{"rendered":"<p><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-medium\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"300\" height=\"203\" src=\"https:\/\/carmogepereira.pt\/vaiserperfeito\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/shorbus-1170x790-1-300x203.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4484\" srcset=\"https:\/\/carmogepereira.pt\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/shorbus-1170x790-1-300x203.jpg 300w, https:\/\/carmogepereira.pt\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/shorbus-1170x790-1-1024x691.jpg 1024w, https:\/\/carmogepereira.pt\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/shorbus-1170x790-1-768x519.jpg 768w, https:\/\/carmogepereira.pt\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/shorbus-1170x790-1-18x12.jpg 18w, https:\/\/carmogepereira.pt\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/shorbus-1170x790-1-980x662.jpg 980w, https:\/\/carmogepereira.pt\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/shorbus-1170x790-1.jpg 1170w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-rich is-provider-spotify wp-block-embed-spotify wp-embed-aspect-21-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe title=\"Spotify Embed: Upside Down\" style=\"border-radius: 12px\" width=\"100%\" height=\"80\" frameborder=\"0\" allowfullscreen allow=\"autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/open.spotify.com\/embed\/track\/5f3tD80yTuvGIu39Dxblo1?si=2e15c02a570c434e&#038;utm_source=oembed\"><\/iframe>\n<\/div><figcaption>Para acompanhar a leitura.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Utopia<\/strong>&nbsp;\u00e9 definido por Nell Eurich em &#8220;Science in Utopia: a migthy design&#8221; como &#8220;os sonhos de algu\u00e9m por um mundo melhor&#8221;. Esta defini\u00e7\u00e3o implica dois conceitos, o de melhor, impreciso, vago e subjectivo e o de sonho, que nos alerta para o aspecto ficcional de Utopia. Utopia pressup\u00f5e, em todo caso, que a sociedade \u00e9 capaz de melhoramento, o melhor \u00e9 a rejei\u00e7\u00e3o do status quo, o melhor traz consigo um sentimento disruptivo com o presente, com o real.<\/p>\n\n\n\n<p>A utopia cl\u00e1ssica transcende espa\u00e7o e tempo, algo que no Shortbus a acontecer, acontece de forma distorcida. As utopias nascem de uma insatisfa\u00e7\u00e3o colectiva, no seio da qual \u00e9 criado o espa\u00e7o para a concretiza\u00e7\u00e3o de todo e qualquer desejo individual. Dirigidas \u00e0 mudan\u00e7a social e pessoal, as utopias, de acordo com Gleen Negley J. e Max Patrick, s\u00e3o ficcionais, descrevem determinado estado de uma comunidade, e o seu tema s\u00e3o as estruturas pol\u00edticas de determinado estado ou comunidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Shortbus a ideia de ruptura concretiza-se numa constru\u00e7\u00e3o ficcional de uma Nova Iorque p\u00f3s 11 de setembro, p\u00f3s-traum\u00e1tica, presente quer em frases de personagens que explicam a recente vinda de muitos jovens para a cidade (&#8220;9\/11. It&#8217;s the only real thing that ever happened to them&#8221;), quer na vista do quarto de hotel, parcialmente emoldurado por dildos, onde Severin est\u00e1 com um cliente, com a presen\u00e7a imediata e demasiado pr\u00f3xima do GroundZero, quer nos medos causados pelas s\u00fabitas falhas de luz, quer na sempre presente dor p\u00f3s-traum\u00e1tica em eventos individuais e colectivos acompanhada de um pedido de reden\u00e7\u00e3o. Shortbus re\u00fane um grupo de pessoas fracturadas, quebradas, na procura de si mesmo e do outro.<\/p>\n\n\n\n<p>Bloqueios expressos com uma viol\u00eancia tremenda, com os bra\u00e7os de Sofia a serem rasgados pelos galhos do bosque no caminho para um orgasmo que n\u00e3o v\u00eam, o corpo de James a ser tragado pela \u00e1gua no momento de suic\u00eddio, Rob a ser marcado pelo chicote de Severin numa viol\u00eancia n\u00e3o mais profissional, mas j\u00e1 descontrolada, nos olhos de James cheios de l\u00e1grimas a for\u00e7ar-se ao metaf\u00f3ricamente inevit\u00e1vel, ao ser penetrado.<\/p>\n\n\n\n<p>Um filme org\u00e2nico e emocional onde a ideia de morte est\u00e1 t\u00e3o subjacente quanto a de vida, a morte presente no caminho de James com um destino final j\u00e1 por ele tra\u00e7ado, a morte na procura de Sofia pelo orgasmo, &#8220;La petite mort&#8221; em franc\u00eas, e logo o renascimento e aqui \u00e9 fulcral &#8220;ShortBus&#8221;, este espa\u00e7o imaginado e mapeado numa NY em papel mach\u00e9. Uma resposta ao &#8220;Where is Utopia?&#8221; de Thomas More, uma met\u00e1fora para essa recusa em responder, representada por uma cidade obra de arte, vista de cima e em maquete, acendendo-se a uma vis\u00e3o que o real n\u00e3o nos permite ter.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;ShortBus&#8221;, o espa\u00e7o, \u00e9 o autocarro para os dotados e com desafios, como nos diz a sua bela mistress Justin Bond as it self: &#8220;You&#8217;ve heard of the Big Yellow School Bus? Well, this is the short one. It&#8217;s a salon for the gifted and challenged.&#8221;, \u00e9 um lugar heterot\u00f3pico onde pessoas de todas as ra\u00e7as, identidades de g\u00e9nero e identidades sexuais v\u00eam para falar, foder, ver e criar novas ecologias de experi\u00eancias. Uma heterotopia \u00e9 um espa\u00e7o de ordem alternativa em contraste com a ordem mundana e tomada como certa, espa\u00e7os que nos desafiam, que questionam os limites da nossa imagina\u00e7\u00e3o, os nossos medos e os nossos desejos. Foucault define estes espa\u00e7os como espa\u00e7os de alteridade e resist\u00eancia, onde ideias de liberdade e controle s\u00e3o postas em causa; Bataille define como incurs\u00e3o disruptiva do sagrado no espa\u00e7o dissidente do profano. Lugares em ruptura com o que os rodeia, pelo marginal, radical, transgressor, espa\u00e7os de amb\u00edval\u00eancia e diferen\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O Pessoal \u00e9 pol\u00edtico&#8221; (Carol Hanish, 1969), o filme Shortbus p\u00f5e em causa pessoas, estruturas intimas, emocionais, sexuais e de g\u00e9nero diferentes, toca as quest\u00f5es de estruturas de poder e de distribui\u00e7\u00e3o em equidade dos \u00edndices de satisfa\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos, o sal\u00e3o Shortbus, lugar Shortbus, \u00e9 este lugar de reposi\u00e7\u00e3o e alteridade ao mesmo tempo, espa\u00e7o transgressivo onde o pessoal deixa de ser privado, torna-se p\u00fablico. E \u00e9 aqui que aparece o conceito radical e socialmente disruptor de permeabilidade como o caminho para a sanidade, numa intimidade desmontada, aberta ao p\u00fablico, onde tudo e todos s\u00e3o permitidos, com refer\u00eancia a actos considerados marginais pelo mainstream, a sexualidades alternativas, a fisting, anal e vaginal, a BDSM, ao incorporar da menstrua\u00e7\u00e3o em performances, um lugar de partilha org\u00edaca e de auto e hetero aceita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Explora-se uma multitude de combina\u00e7\u00f5es criativas, com material sexual expl\u00edcito, de uma forma optimista e intr\u00ednseca, onde o sexo aparece n\u00e3o apenas com um prop\u00f3sito instrumental, mas para a provoca\u00e7\u00e3o intelectual e transgress\u00e3o est\u00e9tica, expl\u00edcito, in your face, em momentos como o da ejacula\u00e7\u00e3o que repinta Pollock, o do ovo vibrat\u00f3rio destru\u00eddo pela pe\u00e7a de arte, o pr\u00f3prio sal\u00e3o ShortBus, espa\u00e7o de liberdade, arte e performance, espa\u00e7o de ac\u00e7\u00e3o criadora. E na medida em que heterotopia permite um modelo de ordem relacional baseado numa ideia de melhoria social poder\u00e1 ser ent\u00e3o um pensamento ut\u00f3pico e ShortBus uma ode \u00e0 alegre e agridoce liberta\u00e7\u00e3o do sexo, uma terra da Cocanha onde h\u00e1 um retorno \u00e0 pureza e abund\u00e2ncia para todos, um \u00c9den sem tanta modera\u00e7\u00e3o, uma city upon a hill t\u00e3o livre quanto o hino cantado no momento de rimming mais musical alguma vez visto, onde a ideia essencial \u00e9 a de entrega directa ao outro, ou outros, \u00e9 a integra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Shortbus \u00e9 um filme redentor.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 dito no filme: &#8220;And of course, New York is where everyone comes to be forgiven.&#8221;, a sensa\u00e7\u00e3o do espectador no final \u00e9 essa, uma sensa\u00e7\u00e3o de perd\u00e3o e integra\u00e7\u00e3o imensa. Uma utopia de amor e excesso, queer pela integra\u00e7\u00e3o de margens e desejos, de retorno pela rejei\u00e7\u00e3o da tecnologia que supostamente nos une mas tantas vezes nos afasta, relembrando um sentido comunit\u00e1rio que pressup\u00f5e toque, intimidade, proximidade, real e f\u00edsica. Utopia \u00e9 tamb\u00e9m um lugar de esperan\u00e7a e de realiza\u00e7\u00e3o. Sejamos perme\u00e1veis ent\u00e3o, nunca esquecendo como diz no filme de criar os espa\u00e7os &#8221; where people are still willing to bend over to let in the new.&#8221; <\/p>\n\n\n\n<p>Shortbus (2006) John Cameron Mitchell Um filme que aconselhamos ver!<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li><\/li><\/ul>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Utopia\u00a0\u00e9 definido por Nell Eurich em &#8220;Science in Utopia: a migthy design&#8221; como &#8220;os sonhos de algu\u00e9m por um mundo melhor&#8221;. 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Utopia pressup\u00f5e, em todo caso, que a sociedade \u00e9 capaz de melhoramento, o melhor \u00e9 a rejei\u00e7\u00e3o do status quo, o melhor traz consigo um sentimento disruptivo com o presente, com o real.<br \/>\nSeguem-se, enumerados e enlistados os v\u00e1rios coment\u00e1rios que foram surgindo:<\/p>","protected":false},"author":1,"featured_media":4484,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[80],"tags":[192,83,193,98,200],"class_list":["post-4482","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-articles","tag-feminism","tag-kink","tag-movie","tag-review","tag-thoughts","nt-post-class","","masonry-item","col-lg-6"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/carmogepereira.pt\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4482","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/carmogepereira.pt\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/carmogepereira.pt\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/carmogepereira.pt\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/carmogepereira.pt\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4482"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/carmogepereira.pt\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4482\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/carmogepereira.pt\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4484"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/carmogepereira.pt\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4482"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/carmogepereira.pt\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4482"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/carmogepereira.pt\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4482"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}